https://DX.DOI.ORG/10.14482/INDES.31.02.001.528

ENTRE O ESPÍRITO PÚBLICO E O DISCURSO POLÍTICO: AS ESTRATÉGIAS DE COMUNICA��O DA PANDEMIA NO CANAL DE JAIR BOLSONARO NO TELEGRAM

Entre el espíritu público y el discurso político: las estrategias de comunicación de la pandemia en el canal Telegram de Jair Bolsonaro

Francisco Sérgio Lima de Sousa, Márcia Vidal Nunes

Universidade Federal do Ceará, Brasil

Francisco Sérgio Lima de Sousa

Gradua��o em Comunica��o Social-Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e mestrado pela mesma institui��o. Doutorando em Comunica��o pelo Programa de Pós-Gradua��o em Comunica��o da ufc (ppgcom/ufc) . Orcid: 0000-0001-8756-0366. sergiolsousa@gmail.com

Márcia Vidal Nunes

Gradua��o em Comunica��o Social pela Universidade Federal do Ceará, mestrado e doutorado em Sociologia pela mesma institui��o. Professora do Programa de Pós-Gradua��o em Comunica��o da Universidade Federal do Ceará (ppgcom/ufc). Orcid: 0000-0003-3318-4937. marciavn@hotmail.com


Resumo

Este artigo analisa a comunica��o feita pelo ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, sobre a Covid-19. O corpus do estudo se circunscreve �s mensagens publicadas pelo político no Telegram, durante os 100 primeiros dias de sua atua��o na plataforma. Analisamos o fen�meno a partir dos conceitos de comunica��o pública e governamental (Duarte, 2007; Brand�o, 2007, 2016; Oliveira, 2013) e comunica��o política (Gerstlé, 2005; Freeman, 2019), confrontandoos com entendimentos sobre o populismo (Waisbord, 2018; 2020; Laclau, 2005; Jagers & Walgrave, 2007; Innerarity, 2015). O estudo utiliza como metodologia a análise de conteúdo (Benoit, 2011; Alonso, 2012; Sampaio & Lycari�o, 2021). Os resultados mostram que Bolsonaro n�o produz comunica��o pública ou governamental, mas sim comunica��o política a partir de seu canal na plataforma, que é usado para estabelecer uma disputa narrativa pela constru��o de sentidos da popula��o sobre a crise sanitária.

Palavras-chave: Comunica��o pública e governamental, comunica��o política, populismo, Bolsonaro, Telegram.


Resumen

Este artículo analiza la comunicación realizada por el expresidente brasileño Jair Bolsonaro, sobre el Covid-19. El corpus del estudio se circunscribe a los mensajes publicados por el político en Telegram durante sus primeros 100 días en la plataforma. Analizamos el fenómeno a partir de los conceptos de comunicación pública y gubernamental (Duarte, 2007; Brand�o, 2007, 2016; Oliveira, 2013) y comunicación política (Gerstlé, 2005; Freeman, 2019), confrontándolos con comprensiones de populismo (Waisbord, 2018; 2020; Laclau, 2005; Jagers & Walgrave, 2007 e Innerarity, 2015). El estudio utiliza como metodología el análisis de contenido (Benoit, 2011; Alonso, 2012; Sampaio & Lycari�o, 2021). Los resultados muestran que Bolsonaro no produce comunicación pública o gubernamental, sino comunicación política desde su canal en la plataforma, que se utiliza para establecer una disputa narrativa para la construcción de significados de la población sobre la crisis sanitaria.

Palabras-clave: Comunicación pública y gubernamental, comunicación política, populismo, Bolsonaro, Telegram.

fecha de recepción: diciembre 8 de 2022. fecha de aceptación: enero 24 de 2023


Introdu��o

O Brasil é o segundo país com mais mortes pela covid-19 no mundo, conforme dados do Coronavirus Resource Center, da Universidade de Johns Hopkins1. No centro das discuss�es sobre as causas deste alarmante quadro sempre esteve o ent�o presidente da República, Jair Bolsonaro, que, desde o início da pandemia no País, minimizou a gravidade da doen�a, adotando um posicionamento negacionista. Defendendo-se das críticas, Bolsonaro incentivou a popula��o a desacreditar em parte da mídia profissional, conclamando, em contrapartida, a uma comunica��o direta com seus eleitores por meio das mídias sociais, em uma estratégia que adotou desde sua campanha presidencial, em 2018.

Em seu discurso de diploma��o como presidente, em 2018, Bolsonaro afirmou: "Senhoras e senhores, vivenciamos um novo tempo. (...) O poder popular n�o precisa mais de intermedia��o. As novas tecnologias permitiram uma rela��o direta entre eleitor e seus representantes"2.

O capit�o reformado do Exército investiu nas mídias sociais para divulgar suas posi��es e atacar aqueles que considerava inimigos. Entretanto, desde pelo menos 2016, Facebook, Instagram, You-Tube e Twitter iniciaram uma política de suspens�o ou banimento de vários indivíduos e grupos que descumpriam as políticas destas plataformas. Esse tipo de a��o passou a ser intensificado a partir de 2019 (Urman & Katz, 2020), atingindo especialmente pessoas e grupos que compartilhavam discursos extremistas, como suprema-cistas brancos, antissemitas, integrantes da chamada alt-right, neonazistas e grupos que disseminam ódio na internet (Kraus, 2018).

A esse ato de remo��o é dado o nome de deplatforming, ou "deplataformiza��o", em portugu�s. A medida vem sendo adotada como antídoto para o ambiente considerado tóxico de certas comunidades online e para discursos extremistas compartilhados por algumas celebridades da web (Rogers, 2020).

Além dos discursos extremistas, um outro fen�meno da comunica��o despertou ainda mais preocupa��o. Em um momento extremamente delicado para a saúde pública mundial, a pandemia da Covid-19, para a qual informa��es corretas sobre os riscos da doen�a, suas formas de transmiss�o e preven��o exercem uma import�ncia de vida ou morte, as campanhas de desinforma��o3 se multiplicaram.

Frente � dimens�o desse problema, a Organiza��o Mundial da Saúde (OMS) declarou que estávamos diante de uma "infodemia", termo usado para se referir � superabund�ncia de conteúdos compartilhados sobre determinado assunto, alguns acurados e outros sem lastro algum com a factualidade, fazendo com que as pessoas enfrentem dificuldades em encontrar fontes confiáveis de informa��o quando as necessitam (World Health Organization [WHO], 2020). Conforme a OMS, � no��o de infodemia "incluem tentativas deliberadas de disseminar informa��es erradas para minar a resposta da saúde pública e promover agendas alternativas de grupos ou indivíduos".

No Brasil, a infodemia foi "patrocinada" pelo próprio ex-presidente, conforme já verificado por ag�ncias de checagem de fatos e pelos próprios sites de rede social. Em mar�o de 2020, o Twitter excluiu dois posts de Jair Bolsonaro, justificando que estes estariam espalhando desinforma��o a respeito da Covid-194. Em janeiro de 2021, o mesmo site de rede social (SRS)5 marcou um tweet do ex-presidente que tratava de tratamento precoce para a covid-19 como publica��o com informa��es enganosas e potencialmente prejudiciais6.

Diante desse movimento das plataformas online, Bolsonaro e aliados, desde meados de 2020, t�m buscado plataformas com menor atividade de controle sobre as postagens publicadas por seus usuários, seguindo um movimento mundial de integrantes da extrema direita. Tais personalidades come�aram a migrar dos aplicativos das grandes companhias de tecnologias, as chamadas Big Tech, para plataformas online alternativas, que ficaram conhecidas como os darker corners of the internet (Rogers, 2020).

O Telegram, o servi�o híbrido de mensagens instant�neas (Nobari et al., 2021) e plataforma de transmiss�o, é um desses espa�os alternativos que atraiu grupos extremistas, e vem sendo citado inclusive como a plataforma favorita do Estado Isl�mico7(Rogers, 2020). A raz�o para isso é o fato de o aplicativo unir ferramentas que facilitam a viraliza��o de conteúdo com uma postura mais leniente a conteúdos radicais. "No Telegram, os usuários podem comunicar-se em grupos ideologicamente homog�neos e distribuir conteúdo extremista sem temer consequ�ncias legais, com o anonimato e a homogeneidade ideológica aumentando o potencial de radicaliza��o" (Urman & Katz, 2020).

O Telegram possui funcionalidades extras em rela��o ao WhatsApp, que o colocam em um meio-termo entre os aplicativos de mensagem instant�nea por celular (Mobile Instant Messaging Services) e os SRS. Além das conversas privadas, em grupos ou linhas de transmiss�o, a plataforma permite a cria��o de canais de amplo alcance, com perfis públicos verificados e localizáveis através de busca. Estes canais também oferecem a possibilidade de intera��o por meio de comentários �s publica��es, funcionalidades semelhantes �s oferecidas pelo Twitter, Facebook e Instagram, os quais já vinham sendo amplamente utilizados por Jair Bolsonaro.

Uma diferen�a fundamental entre WhatsApp e Telegram é que, enquanto grupos formados no primeiro aplicativo podem ter até 256 participantes, este último permite a exist�ncia de canais com número ilimitado de inscritos. Assim, o vernáculo da plataforma (Gibbs el al, 2015), ou seja, sua lógica de uso apropriada e performada pelos usuários na prática, atua de forma a incentivar as pessoas a compartilharem os conteúdos a outros grupos e mesmo outros aplicativos -como o WhatsApp, que é bem mais popular no Brasil-, favorecendo o fen�meno da viraliza��o. Isso vem atraindo a aten��o de muitos políticos conservadores8 e feito com que ele passasse a ser conhecido como o refúgio de vozes extremistas (Rogers, 2020).

Diante desses fatos, o presente artigo se prop�e a compreender as estratégias presentes na comunica��o direta feita pelo expresidente � popula��o por meio das postagens que ele divulgou em sua conta no Telegram. A ideia é centrar o estudo nos posts relacionados � pandemia da Covid-19, para analisar como Bolsonaro travou essa disputa narrativa por meio da referida plataforma.

Comunica��o governamental e pública na pandemia

Bolsonaro trouxe as redes sociais digitais para o núcleo dos processos comunicativos de sua gest�o. Ao anunciar em primeira m�o através de sites de rede social a��es de governo, tais como troca de ministros, novos decretos, san��es presidenciais, antes mesmo de estas decis�es serem publicadas no Diário Oficial da Uni�o (DOU), o ent�o chefe do Executivo federal carregou de oficialidade as plataformas online.

A quest�o é que n�o somente as plataformas online ganharam mais import�ncia dentro das a��es comunicativas do Executivo, mas que a própria imagem de Bolsonaro, como personifica��o do governo, foi revestida de maior relev�ncia. Isso porque ele se tornou um ator de grande centralidade nas redes sociais, um "nó" com grande visibilidade em virtude de seu capital relacional (Recuero, 2009), com poder de influ�ncia que lhe garantiu autoridade nestes ambientes online. O que é dito por ele nas redes alcan�a um número massivo de pessoas, n�o só em virtude do número de conex�es que possuía enquanto presidente, e ainda possui, nestes sites, como pelo fato de suas postagens serem repercutidas na imprensa convencional.

No contexto da pandemia, observou-se uma converg�ncia dos olhares sobre a comunica��o do governo para as redes sociais do próprio presidente. Um exemplo disso: enquanto o canal no Telegram do Ministério da Saúde -principal pasta associada ao combate � covid-19 no Brasil- possuía, em 28 de junho de 2020, pouco menos de 1.800 seguidores, o de Bolsonaro já ultrapassava os 743 mil. No período em que avaliamos a comunica��o do ent�o chefe do Executivo nacional no citado aplicativo, cerca de 30% de todas as postagens foram referentes � Covid-19. Desta forma, poderíamos refletir se Bolsonaro estaria personalizando, através de suas contas nesses ambientes virtuais, a própria comunica��o governamental.

Duarte (2007) conceitua comunica��o governamental como aquela que "diz respeito aos fluxos de informa��o e padr�es de relacionamento envolvendo os gestores e a a��o do Estado e a sociedade" (p. 2), referenciando Estado como o conjunto das institui��es ligadas ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário. Trazendo a defini��o para o contexto brasileiro em análise, observamos um presidente que, inclusive, já contradisse declara��es de seu próprio ministro da Saúde em plena pandemia9, trazendo, assim, toda a oficialidade das informa��es de sua gest�o para sua própria pessoa.

Considerando a tend�ncia de centraliza��o da voz do governo na figura do próprio presidente, e acrescentando o hábito (ou estratégia) deste mandatário de publicizar informa��es oficiais de sua gest�o por meio das mídias digitais, a possibilidade de pensar a comunica��o de Bolsonaro nas plataformas digitais como comunica��o governamental n�o deveria ser de todo descartada, mas a associa��o precisaria ser analisada com mais aten��o.

Historicamente, a comunica��o governamental no Brasil foi de natureza publicitária, empregada para a divulga��o das a��es do governo, utilizando principalmente a propaganda com veicula��o na grande mídia (Brand�o, 2007). Essa natureza publicitária é bastante presente na comunica��o de Bolsonaro em suas mídias sociais.

Com a institucionaliza��o das redes sociais como instrumento oficial de comunica��o do governo, contudo, percebemos uma ruptura nesse processo comunicativo com a sociedade. Se, antes, em um modelo que privilegiava a comunica��o de massa, os fluxos de informa��o intencionavam atingir uma parcela maior da sociedade, hoje, com as redes virtuais, a realidade é outra. O cidad�o, como público de interesse da comunica��o produzida pelo governo, tem sua centralidade deslocada para os seguidores do mandatário, para o seu público aliado.

Tal mudan�a distorce também os preceitos da comunica��o pública, se é que esta categoriza��o poderia ser aplicada � comunica��o feita por Bolsonaro nas redes online. Brand�o (2007) aponta que, nos últimos anos, o conceito se aproximou do processo de comunica��o instaurado entre Estado, governo e sociedade civil. E esta última tem uma amplitude que n�o poderia ser resumida a seguidores de um político em uma determinada rede social.

A no��o de comunica��o pública, muitas vezes, é identificada com aquela feita pelos governos. Para Brand�o, o uso de termos como marketing político, propaganda política e publicidade governamental ganharam, ao longo da história do Brasil, a conota��o de persuas�o, de "manipula��o das massas", e a substitui��o de tais termos por comunica��o pública é "resultado de uma necessidade de legitima��o de um processo comunicativo de responsabilidade do Estado e/ou do Governo que n�o quer ser confundido com a comunica��o que se fez em outros momentos da história do país" (Brand�o, 2007, p. 10).

A autora, por outro lado, defende que, quando a comunica��o governamental é praticada por determinado governo com vistas � presta��o de contas e ao estímulo ao engajamento da popula��o nas políticas adotadas, ela pode ser entendida também como comunica��o pública. Ela entende que um governo produz comunica��o pública quando este estimula o debate público, ao trazer � popula��o conhecimentos que s�o de interesse público.

Em uma obra mais recente (Brand�o, 2019), a autora considera que o conceito de comunica��o pública, antes considerado fluido, vem se consolidando no Brasil e em vários países. Na América Latina, destaca a autora, este conceito está embasado no entendimento de que a comunica��o é um bem público, assim como a informa��o.

Em tempos de pandemia, nada é de mais interesse público do que informa��es relacionadas � Covid-19, suas formas de preven��o e o que vem sendo feito pelo Estado no combate � doen�a. Isso, claro, quando feito de forma responsável, com informa��es confiáveis e visando o bem da popula��o. Duarte (2007) arremata sua reflex�o sobre comunica��o pública através da palavra-chave "espírito público", que, segundo ele, trata-se do "compromisso de colocar o interesse da sociedade antes da conveni�ncia da empresa, da entidade, do governante, do ator político" (p. 3).

Para Oliveira (2013), a comunica��o pública é mais associada ao que comunica (no caso, assuntos de interesse público), do que a quem a produz. Em outras palavras, ela deve envolver, necessariamente, a ideia de cidadania. Ou seja, ela só é possível em contextos democráticos, nos quais a participa��o cidad� é garantida.

A figura conhecidamente autoritária de Bolsonaro já é um indício, antes de uma análise mais pormenorizada, de que sua comunica��o através das redes n�o é calcada na no��o de participa��o cidad�. Se o compromisso maior presente ali é regido pelo espírito público ou por conveni�ncia da constru��o de sua imagem política, a resposta rápida poderia ser inferida através de um olhar a seus posicionamentos que ganham espa�o na mídia. Mas a comprova��o exige análise científica. E também cabe aqui uma outra discuss�o: a comunica��o do ex-presidente sobre a pandemia, ao se distanciar de sua dimens�o cidad� (se assim comprovarmos), estaria enraizada, na verdade, nas bases da comunica��o política?

Comunica��o política na pandemia e o populismo � (extrema) direita

Analisar a comunica��o de Jair Bolsonaro em uma plataforma virtual sobre a pandemia é, inevitavelmente, lan�ar um olhar sobre a performance e o discurso político do ex-presidente brasileiro no frontstage do debate público mediado por tecnologias digitais. Isso, se reconhecemos que o problema de ordem sanitária tomou, no país, dimens�es político-ideológicas que politizaram, inclusive, prescri��es medicamentosas.

A performance, conforme Goffman (1959, como citado em Freeman, 2019, p. 374) é toda a atividade de uma dada pessoa, em uma dada situa��o, que funciona para influenciar de alguma forma outras pessoas. Goffman elabora uma considera��o sobre a distin��o entre o comportamento de frontstage e de backstage deste determinado participante. O frontstage seria o espa�o onde as suas a��es s�o vistas pela audi�ncia, daí seu comportamento é mais controlado. Já no backstage, sem ser visto, a pessoa tende a ser mais casual.

Quando falamos da comunica��o de Bolsonaro enquanto presidente por uma plataforma virtual, estamos falando de um comportamento de frontstage. O que é expresso, em geral, n�o é espont�neo, mas estudado, definido n�o somente por ele, mas por uma equipe de profissionais. O que chegava aos seguidores era um trabalho, muitas vezes, feito por uma assessoria de comunica��o de ministérios e autarquias públicas, que era compartilhado pelo ent�o mandatário. Diferentemente do comportamento que apresentava em reuni�es fechadas ou mesmo quando interpelado pela imprensa ou correligionários, nas redes digitais e plataformas online, Bolsonaro tinha a oportunidade de refletir e elaborar melhor que comunica��o ele queria passar para seu público.

Entretanto, ainda que n�o necessariamente elaborado exatamente por Bolsonaro, o que era publicado em seu perfil ou canal em plataformas digitais recebia sua valida��o, tornando-se parte de seu discurso político. Para Freeman (2019), "o discurso é a forma mais proeminente da a��o política" (p. 376), pois n�o há a��o política sem discurso. O discurso, afirma, refere-se � constru��o de sentidos, a estabelecer defini��es para as situa��es.

Se a pandemia do novo coronavírus ganhou contornos políticos que n�o se podem ignorar, também n�o seria possível analisar o discurso de Bolsonaro sobre esta realidade sem referenciar os conceitos de comunica��o política. Gerstlé (2005) considera por comunica��o política as estratégias de comunica��o empregadas por atores na busca de que outras pessoas sigam suas percep��es públicas. É "um conjunto de esfor�os baseados em recursos estruturais, simbólicos e pragmáticos para mobilizar apoios e fazer prevalecer uma defini��o da situa��o que, espera-se, contribua para a solu��o de um problema coletivo e/ou tornem eficazes as prefer�ncias de um ator, ou seja, de seu poder" (p. 32).

A comunica��o política, portanto, está relacionada com a luta pelas representa��es coletivas. O papel cognitivo e simbólico da comunica��o é maximizado aqui nesta disputa narrativa pela percep��o pública da realidade, que objetiva a "manipula��o das impress�es políticas", segundo defende o autor.

Maria Helena Weber (2011) pontua que a comunica��o dos estados democráticos, além de obedecer �s estratégias políticas e institucionais de visibilidade pública e de presta��o de contas, também busca a disputa de opini�o, o apoio e votos. Como já discutido aqui, Bolsonaro personificou a comunica��o de seu governo em suas mídias sociais e foi por meio delas que travou uma disputa de interpreta��es sobre a realidade com a imprensa.

O descrédito que era apresentado pelo ent�o presidente a parte da imprensa profissional também se manifestou de forma recíproca. Em junho de 2020, os veículos "G1", "O Globo", "Extra", "Estad�o", "Folha e UOL", em uma iniciativa inédita, decidiram formar um parceria para coletar dados sobre a pandemia com as secretarias estaduais de saúde10, após decis�o do governo de restringir dados oficiais sobre a Covid-19. A a��o lan�ava ao público uma desconfian�a sobre os dados do governo e marcou o posicionamento crítico de parcela considerável dos grandes veículos de comunica��o brasileiros quanto � gest�o do governo Bolsonaro no enfrentamento da crise sanitária.

A resposta do governo se dava com for�a nas redes de Bolso-naro, que buscava defender sua gest�o e, ao mesmo tempo, criticar a imprensa que por várias vezes chamou de "esquerdista", "militante" e geradora de fake news.

Na disputa por essa interpreta��o da realidade, Bolsona-ro aliava informa��es de seu governo com tentativas de persuas�o fortemente ancoradas na simbologia do conservadorismo (ou ultra-conservadorismo), do neoliberalismo (especialmente ao defender a n�o-interven��o do Estado na economia por meio de medidas de lockdown), acionando ainda as insígnias do patriotismo (Gon�alves & Neto, 2020) para construir seu enquadramento da realidade.

Nesse processo, defende Waisbord (2018; 2020), ele seguiu uma cartilha semelhante a outros líderes mundiais tidos pelo autor como populistas, tais como o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o presidente da Pol�nia, Andrzej Duda, e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán: o ataque �s institui��es democráticas (a imprensa, especialmente), a distor��o dos fatos ou a escolha de determinados fatos que confirmem suas narrativas e, especialmente, o uso das plataformas virtuais para a pavimenta��o de suas ideias.

O populismo, segundo Laclau (2005), é tido como uma estratégia política para criar uma ideia de "povo" e unificar uma na��o através de demandas que n�o estariam sendo atendidas pelo "sistema". O líder populista, portanto, unificaria a diversidade da popula��o por meio do que o autor chama de significantes vazios. No caso de Bolsonaro, a ideia de "cidad�o de bem" unificaria a na��o em prol da luta pelos valores de "Deus, pátria e família"11.

Jagers e Walgrave (2007), por sua vez, identificam o populismo como um estilo de comunica��o política que busca uma aproxima��o maior com os eleitores. Nesta concep��o, políticos e eleitores seriam aliados na luta contra um inimigo comum. Essa interpreta��o condiz com a estratégia de Bolsonaro de buscar proximidade com seus apoiadores por meio das redes sociais, descredibilizando também, nesse processo, o papel intermediador da imprensa. Como inimigo a ser combatido, o ex-presidente elegeu a esquerda, a qual poderia trazer ao Brasil o "fantasma do comunismo".

A mobiliza��o de emo��es de seus interlocutores é outro tra�o marcante de líderes populistas (Innerarity, 2015) como Bolso-naro, que utilizam da instrumentaliza��o desses sentimentos para a persuas�o da popula��o.

Em sua campanha presidencial de 2018, Bolsonaro se apropriou do sentimento de antipetismo (avers�o a candidatos e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores - PT) para fortalecer sua candidatura, instigando o ódio � esquerda (em especialmente ao PT), em momentos como quando, em um discurso público, pega um tripé de uma c�mera e afirma: "Vamos fuzilar a petralhada"12. Durante a pandemia, já como presidente, usou imagens de pessoas com fome e desempregadas para ati�ar as emo��es de seus apoiadores contra as medidas de lockdown decretadas por governadores de estados.

Metodologia

A presente pesquisa traz uma análise sobre as estratégias de comunica��o de Jair Bolsonaro sobre a pandemia da covid-19, entendendo que os conteúdos compartilhados pelo ex-presidente n�o buscam apenas informar seus seguidores, mas pautar o debate público, construir sua narrativa da realidade e influenciar, convencer a popula��o de seus posicionamentos. O estudo, portanto, segue a tradi��o sociopsicológica das teorias de comunica��o, ao pensar a comunica��o como instrumento capaz de mobilizar, ou mesmo manipular, comportamentos para se obter certos objetivos (Craig, 1999).

O corpus do estudo está limitado �s postagens feitas pelo ex-presidente em seu canal oficial no Telegram (Jair Bolsonaro 1) nos 100 primeiros dias de sua atua��o na plataforma, ou seja, de 11 de janeiro a 20 de abril de 2021, seguindo assim uma amostra proposital (Benoit, 2011). Ao longo deste período, Bolsonaro realizou 1.652 postagens na plataforma, das quais, 484 foram identificadas como relacionadas ao tema da pandemia, ou seja, cerca de 30% do total de mensagens.

A pesquisa aqui presente tem abordagem quantitativa e qualitativa, trazendo como método a análise de conteúdo. Acreditamos que esta escolha nos permitirá uma discuss�o sobre os significados impressos nas mensagens, em suas mais diversas formas, sejam elas por meio de texto, imagens com textos e vídeos ( (Benoit, 2011).

A coleta das postagens seguiu regras previamente estabelecidas em um livro de códigos elaborado previamente para esta pesquisa, o qual define o que foi considerado como postagem sobre a pandemia. A extra��o foi feita de forma manual, pois as ferramentas computacionais disponíveis n�o permitem uma análise subjetiva dos sentidos encontrados no post. Como informa o livro de códigos, a detec��o de uma postagem sobre o tema analisado n�o considera apenas palavras-chave como "Covid-19", "coronavírus" ou "pandemia", mas todo um universo sem�ntico relacionado � crise sanitária (como "máscara", "álcool", "aglomera��o", "fique em casa"...).

Algumas vezes, a refer�ncia � pandemia é expressa sem a utiliza��o dos referidos termos ou de outros semelhantes a eles. Exemplo disso é através do uso de imagens, quando Bolsonaro, em certo momento da pandemia, publica uma foto de celebridades que defendem o isolamento social (medida criticada por ele) flagradas em locais públicos sem o uso da máscara. Para fazer a crítica, o político usa como único elemento textual a palavra "hipocrisia".

De posse do material de análise, empreendemos uma análise temática, que nos permite descobrir os núcleos de sentido da comunica��o. Os temas foram definidos por indu��o, após análise prévia do material, e medimos a frequ�ncia de apari��o dos posts em cada uma destas categorias.

Consideramos estratificar o material inicialmente em cinco unidades de registro: A��es do governo contra a covid-19, Críticas � imprensa; Lockdown/isolamento; Tratamento precoce; e Temas diversos13 (Tabela 1). Diante de uma substantiva preval�ncia de postagens na primeira unidade, distribuímos esse conteúdo em cinco subcategorias: Recursos financeiros aos estados14; Medidas econ�mico-financeiras15; A��es emergenciais16; Vacina/vacina��o e Sistema público de saúde17 (Tabela 2).

Para chegar aos resultados, realizamos um teste de confiabilidade, utilizando como medida de fiabilidade o critério da estabilidade. Segundo Alonso (2012, p. 32):

La estabilidad es el grado en el que un proceso permanece inmutable a lo largo del tiempo. Los datos para medir la estabilidad provienen de la repetición del mismo proceso en dos puntos temporales (test y re-test). Aplicado a la codificación manual, esto significa que un codificador realiza la codificación de un mismo texto dos veces, la segunda vez algunos días (o semanas) después de la primera.

O critério da estabilidade foi escolhido por ser recomendado para pesquisas individuais (Sampaio & Lycari�o, 2021), que é o caso deste artigo, o qual é proveniente de uma tese de doutorado em desenvolvimento. O primeiro teste foi realizado em julho de 2021. O segundo, feito pelo mesmo codificador, em janeiro de 2023. Os resultados foram os seguintes:

As únicas inconsist�ncias que mereceram aten��o entre as duas análises disseram respeito a algumas postagens que se encontravam na categoria "A��es do governo contra a Covid-19". Elas se explicam pelo fato de as mensagens tratarem de mais de um assunto das subcategorias previamente definidas. Para resolver o problema, tais postagens foram agregadas em uma subcategoria criada posteriormente, denominada "A��es diversas". Equalizada a quest�o, os resultados podem ser considerados fiáveis, conforme Sampaio e Lycari�o (2021), por, ao final, n�o haver desvios relevantes entre as codifica��es.

Benoit (2011, p. 269) conceitua análise de conteúdo como a "medi��o das dimens�es do conteúdo de uma mensagem ou mensagem em um contexto". Consideramos essa defini��o importante por destacar a dimens�o do contexto na análise. Por esta raz�o, a observa��o dos fatos associados �s postagens feitas por Bolsonaro no Telegram foi necessária n�o somente para produzir infer�ncias sobre o sentido dessas mensagens, mas também para categorizar estes posts, uma vez que as postagens em algumas categorias, muitas vezes, só puderam ser diferenciadas por meio da considera��o do contexto em que elas foram publicadas.

Análise das postagens de Bolsonaro

Analisando os 100 primeiros dias de Jair Bolsonaro no Telegram, observamos que o ent�o presidente publicou uma média de 17 postagens por dia no aplicativo. Esta primeira constata��o confirma algo já previsto, uma vez que o vernáculo (Gibbs et al, 2015) deste servi�o de mensagens instant�neas incentiva os "nós" de maior centralidade na rede (Recuero, 2009) a compartilharem conteúdos com maior frequ�ncia em vista do potencial de multiplica��o dessas mensagens na própria plataforma e mesmo fora dela.

Em suas mensagens relacionadas � Covid-19, Jair Bolsonaro busca, acima de tudo, munir seus seguidores de informa��es sobre a��es de sua gest�o no enfrentamento � pandemia. Esta é a primeira aprecia��o que podemos fazer após a explora��o do material segmentado em categorias. Um total de 77,89% de todas as mensagens do corpus da presente pesquisa est�o relacionadas a esse fim.

Estas postagens versaram principalmente sobre dois assuntos: vacina/vacina��o (39,79%) e a��es emergenciais (35,81%). Quanto ao primeiro, as mensagens mostram a evolu��o da vacina��o no Brasil - apresentando, quase que diariamente, um "vacin�metro" que traz o número de doses aplicadas -, as negocia��es e as compras de imunizantes com as empresas, as a��es de vacina��o em diversos postos pelo País e o discurso reiterado de que o Brasil seria um dos países que mais vacinam no mundo (figura 1).

https://youtu.be/KrQlp-9TJYo

É importante ressaltar que, em 13 de abril de 2021, foi instaurada a Comiss�o Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, para investigar omiss�es e irregularidades nas a��es do governo federal durante a pandemia. A maior parte das mensagens desse corpus, portanto, se dá no período anterior ao início desses trabalhos, mas já havia antes disso muitos questionamentos por parte da imprensa, de congressistas e outros atores da sociedade civil quanto � eficácia das a��es da gest�o Bolsonaro em rela��o � crise sanitária, e o atraso na compra de vacinas vinha sendo uma das principais críticas. Ent�o, podemos entender que o volume de mensagens no Telegram do ex-presidente relacionado a esse tema seja justificado pela tentativa de refutar tais acusa��es, ainda que isso n�o seja feito de forma direta.

Já as mensagens sobre a��es emergenciais se referem a temas como as medidas feitas pelo governo diante da crise de falta de oxig�nio nos hospitais de Manaus, deflagrada em janeiro18, as a��es de distribui��o de alimentos a famílias que estavam sem renda diante das medidas de lockdown, a entrega de equipamentos de oxig�nio e de kits de intuba��o, entre outros assuntos semelhantes.

Destacamos ainda a recorr�ncia de mensagens relacionadas � atua��o das For�as Armadas, que s�o de onde o ent�o presidente vem e de onde toma emprestado parte do simbolismo de sua persona (figura 2). Imagens de equipes da Aeronáutica, da Marinha e do Exército em a��o no transporte de alimentos, medicamentos e vacinas e nas próprias campanhas de vacina��o pelo país s�o apresentadas em mensagens que buscam retratar uma ilustra��o de heroísmo, patriotismo e de "trabalho incansável" por parte destes atores. Foram 109 mensagens do tipo, que representam 22,1% de todas as postagens feitas por Bolsonaro sobre a pandemia19.

As demais mensagens da categoria tratam de recursos destinados por Bolsonaro aos Estados -através dos quais ele, muitas vezes, busca eximir-se da responsabilidade da crise, imputando-a a governadores� e medidas econ�mico-financeiras, como auxílios financeiros � popula��o (a exemplo do auxílio emergencial de R$ 600), redu��o de impostos e ajuda a setores econ�micos diretamente afetados pela pandemia. As postagens sobre o sistema público de saúde mostram aportes financeiros e estruturais a hospitais brasileiros, além de contrata��o de profissionais de saúde.s

A categoria em análise mostra uma inten��o semelhante ao que caracterizou, historicamente, a comunica��o governamental no Brasil: a presta��o de contas das a��es do governo. As postagens carregam uma natureza publicitária, pois através delas o ex-presidente busca exaltar seus feitos, criando uma percep��o de proatividade da gest�o diante da crise.

Contudo, as postagens de Bolsonaro diferem da no��o de accountability, que implica o reconhecimento da responsabilidade da autoridade pública sobre quest�es que afetam a sociedade (Gerstlé, 2005), com ética e transpar�ncia na apresenta��o de dados. Bolso-naro, por outro lado, terceiriza a culpa da crise a governadores e busca contrapor a imagem negativa que, no período, vinha sendo imputada a ele por parte da imprensa, a qual questionava a suposta inoper�ncia do governo e o responsabilizava pela situa��o caótica por que passava o país.

As críticas �s medidas de lockdown e isolamento social s�o outra marca da comunica��o do ex-mandatário no Telegram (figura 3). Estas medidas sempre foram manifestamente questionadas por Jair Bolsona-ro, que sempre defendeu a manuten��o das atividades econ�micas.

Repetidamente usando a frase "todo trabalho é essencial", Bolsonaro criticou as medidas tomadas pelos governadores, afirmando que estas seriam a causa de danos maiores ao País, como a fome e o desemprego. Como uma estratégia populista (Jagers & Walgrave, 2007), Bolsonaro buscou colocar os governadores como os inimigos dos brasileiros na luta contra a pandemia, especialmente aqueles de estados do Nordeste (em sua maioria, de esquerda), que, com decretos de lockdown, teriam prejudicado a popula��o.

Bolsonaro compartilhou mensagens de pessoas declarando que queriam voltar a trabalhar e de pessoas passando por dificuldades por estarem sem renda. Um padr�o percebido nessas mensagens é a evoca��o das emo��es. Ele trazia histórias individuais de sofrimento para sensibilizar a popula��o contra estas medidas. Como discutimos anteriormente, esta é outra marca comum da política que vem sendo feita por líderes populistas (Waisbord, 2018, 2020; Innerarity, 2015).

Também como característica dessa forma de fazer política, está a crítica � imprensa. Ao apresentar informa��es favoráveis � sua gest�o, o ex-presidente ia afirmando, insistentemente, que tais temas "propositalmente" n�o seriam apresentados na imprensa convencional, que acusava de ser "ativista" e "mentirosa", chegando a usar o termo "blogueiros" para se referir a jornalistas profissionais.

O chefe do Executivo traz reportagens positivas � sua gest�o feitas pela TV Brasil, empresa estatal, ou de canais como a Record, ent�o aliada do governo20, para tecer comentários reprobatórios � maior parte da imprensa, especialmente � Rede Globo, mencionada indiretamente ao utilizar express�es como "certa/determinada emissora de TV" ou a "TV que quer matar o seu país". Os embates públicos e notórios de Bolsonaro com a Globo nos permitem inferir que, nas citadas afirma��es, as refer�ncias foram a esta emissora.

Outra categoria se refere � defesa do tratamento precoce, a qual foi feita por Bolsonaro desde meados de 2020 em diversas redes sociais digitais e em declara��es públicas. Nestas mensagens, ele apresentou estudos científicos que comprovariam a eficácia desse tipo de tratamento e usou falas de cientistas que defendiam esse protocolo (figura 4). Uma destas postagens também foi feita em sua conta no Twitter e foi marcada pelo próprio site como "publica��o de informa��es enganosas e potencialmente prejudiciais relacionadas � covid-19", ferindo, assim, as regras da plataforma.

Bolsonaro chegou a defender que "o tratamento precoce salva vidas", afirma��o negada pela comunidade científica. E aqui encontramos uma contradi��o: mesmo minimizando a import�ncia da ci�ncia por diversas vezes durante a pandemia, o ex-presidente recorreu exatamente a inst�ncias científicas para legitimar seu posicionamento, quando convinha � sua narrativa.

Também nesta unidade est�o mensagens sobre a��es diplomáticas com Israel, onde se buscavam novos tratamentos � doen�a, como um spray nasal contra o novo coronavírus21, o qual ainda estava em fase de estudos, sem nunca haver sido objeto de artigo publicado em revistas científicas até ent�o. O produto nunca teve acordo fechado com o Brasil.

As postagens sobre tratamento precoce podem ser consideradas como campanhas de desinforma��o, por defenderem protocolos n�o aceitos pela comunidade médica internacional e pelo potencial prejuízo que podem trazer � popula��o. Aqui, percebemos que a comunica��o de Bolsonaro n�o esteve pautada no interesse da sociedade, afastando a possibilidade de que sua atua��o nesta plataforma pudesse ser pensada como comunica��o pública.

Por fim, na unidade de registro "temas diversos", incluímos as postagens que agregam as diferentes categorias apresentadas. Muitas vezes, eram posts das lives semanais do ex-presidente, através das quais ele tratava de diversos assuntos, ou discursos feitos em público, nos quais se referia a vários desses temas relacionados � pandemia.

Considera��es finais

O Telegram é um instrumento em meio a tantos outros disponíveis na rede para que o capit�o reformado possa estabelecer sua comunica��o direta com seus apoiadores. Compreendendo o poder da comunica��o mediada pela internet e a for�a que as plataformas virtuais exercem hoje na opini�o pública, Bolsonaro buscou estar presente em todas elas (ou no máximo que p�de), percebendo as vantagens específicas que cada uma delas oferece. Através do servi�o de mensagens instant�neas em análise, Bolsonaro abasteceu seus seguidores de um número elevado de informa��es sobre as a��es de seu governo no combate � covid-19, construindo um enquadramento no qual sua gest�o foi apresentada como bem-sucedida e proativa no enfrentamento da pandemia.

Apesar de o principal objetivo do ex-presidente através das mensagens pelo Telegram parecer uma presta��o de contas � sociedade, o que aproximaria essa atua��o do entendimento histórico de comunica��o pública no Brasil, n�o houve transpar�ncia na apresenta��o desses dados. Alvo de questionamentos dos mais diversos segmentos da sociedade quanto sua atua��o no combate � doen�a, Bolsonaro usou seu canal para construir uma espécie de "realidade paralela", que funcionou mais como uma tentativa de, indiretamente, refutar as críticas que recebia.

Também identificamos que n�o houve um "espírito público" na a��o comunicativa de Jair Bolsonaro. Ao defender tratamentos sem comprova��o científica e ao ir contra medidas de refreamento da contamina��o pelo vírus defendidas por autoridades sanitárias de todo o mundo, o ent�o chefe do Executivo brasileiro contribuiu para a desinforma��o da popula��o. Uma comunica��o que n�o tem o foco no cidad�o n�o pode ser chamada de comunica��o pública. Também n�o é comunica��o governamental. O que Jair Bolsonaro produziu em seu canal no Telegram foi puramente uma comunica��o política.

Ao trazer para o núcleo de sua estratégia comunicativa a disputa narrativa sobre as constru��es de sentido da sociedade sobre a pandemia, Bolsonaro se colocou no papel central de sua própria comunica��o. Descredibilizando a imprensa e o saber científico, terceirizando a responsabilidade pela administra��o da crise sanitária e manipulando os sentimentos da popula��o a seu favor, o ex-presidente brasileiro atuou como um líder populista conservador ciente das características e possibilidades da nova ecologia midiática.


1 https://coronavirus.jhu.edu/map.html (recuperado em 10 de janeiro de 2023).

2 Integra do discurso disponível em: https://veja.abril.com.br/politica/veja-a-integrado-discurso-de-bolsonaro-na-diplomacao-do-tse/(recuperado em 10 de janeiro de 2022).

3 Benkler, Faris e Roberts (2018, p. 17) conceituam as campanhas de desinforma��o como a "manipula��o intencional de cren�as". Segundo os autores, as campanhas de desinforma��o t�m o propósito de manipular e enganar pessoas com fins políticos. Isso pode ser feito por meio de informa��es com fontes ou conteúdos falsos, ou "sutilmente mascarados ou manipulados para parecerem diferentes do que realmente s�o" (p. 43).

4 https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/29/twitter-apaga-publicacoes-de-jair-bolsonaro-por-violarem-regras-da-rede.ghtml (recuperado em 10 de dezembro de 2022).

5 Recuero (2009, p. 101) utiliza a denomina��o de sites de redes sociais (SRS) para se referir aos "espa�os utilizados para a express�o das redes sociais na internet".

6 https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/01/15/twitter-poe-aviso-em-post-de-bolsonaro-sobre-tratamento-precoce-contra-covid-que-nao-tem-com-provacao.ghtml (recuperado em 10 de dezembro de 2022).

7 Estado Isl�mico no Iraque e do Levante, conhecido também pela sigla ISIS (Islamic State of Iraq and Syria), é uma organiza��o jihadista islamita criada em 2013 e autoproclama-da "califado" em 2014. A organiza��o "evoluiu a partir da al-Qaeda (aQ) no Iraque e ganhou proemin�ncia tirando partido, sobretudo, dos resssentimentos sectários no Iraque e do caótico conflito na Síria" (Tomé, 2016).

8 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/06/telegram-tem-dominio-de-canais-bolsonaristas-e-risco-de-enxurrada-de-fake-news-em-2022.shtml (recuperado em 10 de dezembro de 2022).

9 https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/10/bolsonaro-fala-em-traicao-e-diz-que-nao-vai-comprar-vacina-chinesa.shtml (recuperado em 10 de dezembro de 2022).

10 https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/08/veiculos-de-comunicacao-formam-parceria-para-dar-transparencia-a-dados-de-covid-19.ghtml (recuperado em 27 de janeiro de 2023).s

11 Por diversas vezes, Bolsonaro invoca essa tríade, que é a máxima do Movimento Integralista Brasileiro. Conforme Gon�alves eg Neto (2020, online), o integralismo brasileiro foi "o maior movimento de extrema direita da história do Brasil", surgido na década de 1930 e considerado o bra�o político e fascista da Igreja Católica.

12 https://exame.com/brasil/vamos-fuzilar-a-petralhada-diz-bolsonaro-em-campanha-no-acre/ (recuperado em 31 de janeiro de 2023).

13 Postagens com outros temas que n�o os citados anteriormente; ou aquelas que envolvem diversos dos temas anteriores.

14 Auxílios financeiros destinados pelo governo federal aos estados para o combate � Covid-19.

15 Auxílios financeiros diretos � popula��o, redu��o de impostos e ajuda a setores econ�micos diretamente afetados pela pandemia.

16 Crise sanitária no Amazonas pela pandemia, entrega de alimentos em virtude do lock-down, entrega de oxig�nio, kits de intuba��o etc.

17 Posts que apresentam medidas relacionadas a aportes financeiros e estruturais ao sistema público de saúde, no que se refere ao combate � pandemia (novos leitos, novos hospitais, novos equipamentos médicos, contrata��o de profissionais de saúde).

18 https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-24/400-reais-para-respirar-mais-quatro-horas-em-manaus.html (recuperado em 10 de dezembro de 2022).

19 Como este tema estava distribuído entre outras categorias, ele n�o foi considerado uma unidade de registro.

20 https://theintercept.com/2020/02/23/imprensa-bolsonaro-band-sbt-record-rede-tv/ (recuperado em de dezembro de 2022).

21 https://brasil.elpais.com/sociedade/2021-02-17/milagroso-spray-israelense-para-a-covid-19-que-bolsonaro-quer-aprovar-com-urgencia-ainda-nao-nasceu.html (recuperado em 10 de dezembro de 2022).


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